domingo, 20 de junho de 2010
Hamlet ou a morte do pai: luto e tragédia do desejo
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Pedofilia
Breno Melaragno - Professor PUC/RJ e Advogado Criminalista * Carlos Fortes - Promotor de Justiça - MG * Leda Nagle * Carlos Eduardo Leal – Psicanalista e escritor * Vladimir Brichta -Ator exclusivo Rede Globo * Talvane de Moraes - Psiquiatra Forense
No dia 16 de abril último, fui convidado a debater sobre a pedofilia no Programa Sem Censura da Leda Nagle, na TVE- Brasil. O tema era sobre o pedreiro Ademar de Jesus que havia matado e tido relações sexuais com 6 jovens em Luisiânia, Go. Mas, obviamente, muitas outras questões foram abordadas.
O sujeito perverso é aquele que diz que "não consegue se conter" e Edimar dizia, "não consigo parar de matar". A perversão se coloca acima da lei. Ele faz suas próprias leis. Não podemos dizer que vivemos cada vez mais numa sociedade perversa, mas numa sociedade ainda fortemente marcada pela neurose com graves traços de perversão. Ou seja, há umfranqueamento muito maior para a perversão, para o ato perverso em nosso meio social. A impunidade é o franchising da perversão. O mal, o mal-estar na civilização é o apagamento do desejo do sujeito frente à avalanche de demandas que o discurso capitalista oferece. Estafetichização das mercadorias, levam os sujeitos a um "dever de felicidade", como se fosse uma obrigação em ser feliz e uma depressão quando não se é.
Outro fato marcante que também tem acontecido é uma fratura do simbólico. Fratura das relações e dos laços simbólicos. Fratura das leis que regem as relações. Pais e filhos, professores e alunos, mestres e discípulos, patrões e empregados. As relações hierárquicas estão se esfacelando, virando pó (sic). Há micro revoluções não armadas, ou melhor, armadas em salvo-condutos, habeas-corpus, ou pior, a revolução dos celulares com câmeras de vídeo, tornou a todos espiões num reality show jamais visto até então. Todos estão vigiados e vigiam-se mutuamente num grande BBB.
A desestabilização do Imaginário (das garantias imaginárias - certezas construídas ao longo da vida), produz uma quebra, uma ruptura do simbólico (as palavras), fazendo emergir o insuportável peso do Real.
Mas o Ademar de Jesus dizia outras coisas. Dizia que ouvia vozes e que estas vozes o mandavam matar os jovens. Ora, se era assim, não se trata de uma perversão e sim de uma psicose. Não é nada raro esquizofrênicos que são assassinos obedecendo ao imperialismo gozo do Outro. Na perversão é a vontade de gozo, do próprio sujeito que faz com que ele não consiga se conter. Mas na psicose, como parece agora depois de sua morte, o sujeito alucina uma outra realidade.
Serge Cottet nos diz que "a especialidade de Lacan é o crime paranóico - não é o crime perverso, não é o crime de massa". Mas a pulsão criminosa já era vista por Freud quando ele estudou o assassinato do pai primitivo. Esta pulsão, pulsão de morte com certeza, imperativa sobre o próprio sujeito o levaria a cometer os assassinatos. Na alucinação o sujeito passa ao ato sem saber, melhor, sem um saber sobre a morte. Ao contrário da perversão na qual o sujeito sabe muito bem sim sobre seu ato. Aliás, ele o premedita. Premedita tanto que deixa brechas. CasosSuzane Von Hichtoffen, rapaz de Osaco que matou a avó e de tarde já havia sido preso, o pediatra que abusava dos rapazes e filmava tudo e depois jogava as fitas de vídeo em cima da lixeira. Ou seja, rastros da evidência de seus crimes. O paranóico não tem esta preocupação. Em sua alienação ele faz porque uma voz manda.
Ainda haverá muita dúvida no ar, mas uma única certeza: na perversão ou na loucura é muito difícil prever o próximo passo em direção à morte. E a justiça? Tarda e falha. Nisto ela tem sido perfeita. A leniência com a progressão de regime, coloca à solta o medo e a insegurança. Não sou especialista na área, mas como cidadão comum sinto-me impotente diante da ineficácia de quem deveria exercer a justiça. Descobrimos a cada dia um abuso, uma molestação, tal e qual o perverso diante daqueles que sabem os meandros da lei e possuem os recursos financeiros adequados contra aqueles que estão marginalizados (pelo saber ou pela pífia situação pecuniária) e, portanto não tem como se defender.
A origem do mal está em cada um de nós. A origem do bem também. O que se espera é que a ética, ética do desejo e da responsabilidade, faça avançar o affectio societatis em nosso meio, em nosso mal-estar da vida quotidiana. Como deter, como barrar o gozo absolutista do Outro? Como deter a Vontade de Gozo do perverso? A psicanálise é um instrumento que faz barreira e não compactua com o gozo. Ela aposta na ética, volto a dizer, na ética do desejo. Do um a um. A singularidade como aposta de saída contra a tirania do 'dever ser feliz', do 'dever gozar a qualquer preço'.
Os laços simbólicos estão frágeis, quebradiços. É um momento em que a "palavra" quase-nada-significa. Resgatar a dimensão simbólica da palavra é também não se perverter, no sentido lato da palavra perversão que significa errância de caminho.
Mas, insisto. Não há "O caminho". O que existe são caminhos que devem ser trilhados um a um. E, assim, possibilitar o encontro com a ética já que esta emerge (Emerj? sic!) quando surge o outro.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
O estranho homo homini lupus
segunda-feira, 1 de março de 2010
Sobre o ensino e a transmissão da psicanálise
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Depressão: patologia ética?
Depressão: patologia ética?
A depressão tem se tornado um mal maior do que poderíamos esperar. Aliás, o mundo como um todo, dizia uma pessoa, tem se tornado um excesso maior do que supôs nossa vã filosofia. Vivemos num mundo de excessos. Somos excedentes? Nós mesmos nos tornamos um excesso ao excesso que é o próprio mundo? Na verdade, o que podemos esperar da vida?
A compulsividade desenfreada nunca conheceu tanto incentivo mercadológico quanto o que temos visto em nossos consultórios. A constatação? Sujeitos cada vez mais deprimidos, apáticos diante de um mundo que parece que os vai engolir. Há uma selvageria nesta sociedade do espetáculo e dos efeitos especiais que acabam tendo como efeito sujeitos imobilizados diante de suas angústias, suas dores de existir, suas fobias enclausurantes. E, pior. Não sabem dar uma resposta a tudo isto pelo simples fato de acharem que podem dar resposta a tudo. Com a internet o mundo se abriu ao infinito, mas paradoxalmente, tivemos a desilução da finitude o que leva alguns sujeitos a constatarem pálidos: então o mundo é só isto? Outro estranho paradoxo que desta vez vem da Bíblia. Lá no Gênesis está escrito que os olhos do homem se arregalaram ao provar da árvore do conhecimento. Pois não é exatamente isto que estamos vivendo agora? A constatação (ilusória) de que podemos saber tudo? Há um excesso de informação para pouquíssima formação.
Os corpos tornaram-se Torres de Babel. Constantemente inacabados, continuamente querendo chegar à perfeição e prodigiosamente fracassando quando estavam no auge de quase poder alcançá-lo quer seja através do empuxo ao gozo desenfreado dos exercícios in extremis, quer seja pela introdução de próteses. Freud escreveu em o Mal-Estar na Civilização que o homem é um Deus de prótese. Ele, em 1930, previa a enxurrada de artifícios (botox, metracrilex ou substâncias tóxicas) que tentam manter os sujeitos no Jardim das Delícias eternamente.
Lacan nos diz que quando se atende a demanda, esmaga-se o desejo. Ele dizia isto sobre a relação analista-analisando. Mas o que vemos hoje é um mercado que está apto a atender e a suprir a qualquer demanda: das drogas ilícitas às lícitas, do fast food à delicatessen mais exótica, da igreja mais ortodoxa ao culto pagão, ou seja, há uma suplência para toda a falta. E é isto que produz sujeitos deprimidos: não há mais lugar para a falta e, portanto, para o desejo. Se não há lugar para o desejo, pela promessa de que tudo pode ser suprimido – também pelos comprimidos -, então o que há é uma falta da falta. Pura angústia. Fobia desencadeada que prende a todos em suas ilhas artificiais. Ninguém mais pode ter a desculpa de falhar, pois você pode conseguir tudo. É o imperativo americano do if you want, you can! Se você falhar, a culpa é sua. Mas ninguém quer se responsabilizar por nada. Os corpos das Torres de Babel de que eu dizia? Pois não há dúvidas de um processo crônico civilizatório dos sujeitos quererem continuar eternamente adolescentes, isto é, achando que podem ainda continuar irresponsáveis. Não há responsabilidade porque não há castigo. E não há castigo porque a lei do pai está em franca decadência. As hierarquias foram para o espaço. Talvez estejam nadando por aqui no cyberespaço, mas de fato e de direito? Esta condição parece ter chegado ao fim. A função paterna está capenga e não acredito haver substitutos. Quando os detectamos podemos pensar que ali talvez esteja uma impostura em curso.
Há um imperativo categórico que visa com que cada um deva suplementar-se de tudo, endividando-se se preciso for. Aliás, o binômio dívida-culpa nunca esteve tão presente. Mas é uma culpa que não faz com que os sujeitos repensem as suas atitudes e as refaçam de outro modo. Há um excesso de atos, de passagens ao ato e, em contrapartida, uma diminuição exacerbada do estatuto do simbólico: das palavras que possuam relevância, eficácia e peso. Não, não é uma leveza. Antes. O que há é uma fragilidade capilar da palavra. Nenhuma parece se sustentar. Nenhuma parece ter a dignidade ética para bem dizer uma vida. Há uma crise da linguagem que se passa através das palavras. Em nossa época as palavras tornaram-se extremamente frágeis, inconsistentes, são desditas, apresentam-se disfarçadas, escamoteadas, vazias, enlameadas, inúteis, incapazes de se tornar um significante que ordene um discurso. Não que elas não possuíssem estas e outras características em outras épocas, mas o que parece é que não há outra opção. Há uma sensação de que se pode dizer qualquer coisa, pois tudo pode caber. Mesmo aqueles que possuem uma representatividade (principalmente estes) no social, quando dizem “merda”, o povo parece sorrir mais das charges do que se lamentar ou, melhor, do que dar uma resposta que seja constitutiva de um bem dizer.
Se antes, em função da neurose, os sujeitos tornavam-se covardes e recuavam diante de seus atos, o que acontece hoje não é uma postura ética. Muito pelo contrário. A certeza da impunidade (sem o “p” de político, ou de parlamentar, vira ‘imunidade’) não os livrou da covardia moral, mas criou uma legião de tentáculos que produzem milhares de atos impensados que são impossíveis de serem contidos. Então, descobriu-se, para tristeza e espanto de todos, que é a própria lei que está em depressão.
Mesmo assim, ou apesar de tudo isto, a psicanálise em seu olhar sobre a polis, aposta, desde Freud, que a saída ética para o sujeito (ética do desejo), seja através da palavra. Resgatar a vida é, portanto, resgatar uma outra dimensão da palavra em seu bem dizer.