domingo, 20 de junho de 2010

Hamlet ou a morte do pai: luto e tragédia do desejo

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Laurence Olivier

Anotações para um debate sobre o filme "Hamlet"

A encruzilhada hamletiana pousa sobre uma frase de Freud: "a punição espera pelo desobediente". A tragédia de Hamlet gira em torno da morte do pai e da culpa que, como diz Freud, é uma variante topográfica da angústia.
O que o Outro quer do meu eu? Esta parece ser a impossível verdade a ser encontrada pelo jovem Hamlet que em sua indecisão de agir estabelece para si mesmo uma culpa transgressora. E os transgressores são punidos com o remorso. "Remorso" em latim remorsus, o particípio passado de remordere, significa tornar a morder. Lugar comum para o caráter anal-sádico tão evidente na neurose obsessiva. É uma culpa que morde o neurótico não lhe dando coragem para a ação.
Aqui a neurose trabalha para colocar a morte como um significante mestre. A pulsão de morte, o gozo mortífero é o drama que se delineia nesta tragédia.
Por que Hamlet, ao contrário de Édipo, não age? Por que ele procrastina em sua decisão de vingar a morte do pai? Há um imperialismo do gozo do Outro sobre o sujeito. Este gozo do Outro é um gozo fundamentalista que não se submete à lei. A castração, a verdade e a morte é o que Hamlet tenta evitar.
O luto não nos dá nenhum saber sobre a morte. Ao contrário, ao tentar elaborar uma perda, ele no coloca nos limites da vida. Há um não-todo, há um, "não se pode tudo" diante do luto. A tentativa de se simbolizar uma perda é a confrontação de que a vida é falha e ela rateia justamente a partir da transmissão de um saber do pai para o filho. É neste sentido que para hamlet seu pai já estava morto e ele não sabia. Ao saber na confrontação com o espectro de seu pai, ele se assusta com este saber sem defesa. Por isso ele procrastina o encontro com a verdade. Em sua genealogia já encontramos a morte simbólica do pai: o pai está morto desde sempre.
Há um real da perda do objeto e diante disto o sujeito precisa elaborar uma falta (simbólica). Fazer passar o real através do simbólico é, de alguma forma, poder realizar o luto.
Se Édipo claudica, Hamlet hesita. Assim a 'impossibilidade' é um outro nome para o filho do rei da Dinamarca.
Neste sentido, se o desejo é impossível, o luto também o é. E se não há saída através do luto, abre-se um espaço para a depressão. Aqui, tempo e espaço são decisivos na clínica quotidiana. Afunila-se os espaços e reduz-se o tempo de existir. É a dúvida hamletiana sobre ser ou não ser.
O luto é uma tentativa de resposta simbólica ao real de uma perda. Há uma espécie de forclusão no luto porque o retorno do objeto morto é impossível. O trabalho do luto consiste, pois, a partir desta perda no real, por-se a trabalho para conservar ao menos a imagem, os traços significantes da história e tentar anular a impossibilidade de dizer a morte.
Diante do luto há algumas consequências: desestabilização do imaginário, quebra do simbólico e irrupção do real. Além de um empobrecimento do eu, perda do sentimento de auto-estima e desinteresse pela vida.
O tempo do luto é este tempo que oscila entre a perda do objeto e sua elaboração simbólica. Neste tempo surge a pergunta para a qual o sujeito luta para encontrar a resposta: o que sou eu para o Outro? A angústia é o medo que a falta, falte. E, se ainda há chance de se fazer esta pergunta, é porque o sujeito ainda não está totalmente paralisado diante da angústia de castração.
Falta=simbólica Perda=real
O luto não seria uma retomada daquilo que Freud havia observado nas identificações? Aquela mítica ao pai da incorporação, que nos reenvia à metáfora paterna e ao Nome-do-Pai? Assim, todo luto verdadeiro não seria um eco desse luto mítico, onde a lei se institui através do crime do pai da horda?
Na histeria, os sintomas a levam à denegação de seu desejo pelo pai morto e cujo luto está por ser feito.
Na neurose obsessiva, o que faz retorno no luto é a questão do gozo do Outro: pela anulação e através do isolamento, o obsessivo se coloca a tentar apagar os traços da morte.
HAMLET: o rei da Dinamarca
HAMLET: o príncipe e filho do rei.
Hamlet se encontra com seu pai morto
Hamlet se encontra com seu nome morto. (Assim como Van Gogh, que teve um irmão natimorto com seu mesmo nome, encontrava-se consigo mesmo na lápide do cemitério ao lado da igreja que frequentava quando criança. Lá estava enterrado Vincent Van Gogh). É com esta identificação ao que já estava morto em seu nome que Hamlet mortifica seu desejo. A tragédia de seu desejo não tem outro fim que não a morte.
A análise propõe uma outra saída que não a trágica. A análise aposta numa ética do desejo para além do pai, mas sem prescindir dele.
Temos uma tendência do ponto de vista clínico a opor Hamlet a Édipo. Hamlet não age porque sabe e Édipo por não saber age em busca de sua verdade. Ele a encontra e se cega. Hamlet se cega porque ele vê demais.
Mas do ponto de vista ético, prefiro contrapor Hamlet a Antígona. Ali onde Hamlet procrastina, Antígona segue em seu desejo. Se Hamlet tenta evitar o conflito, Antígona a ele se expõe sabendo que a colisão é inevitável, assim como a morte.
Hamlet tenta unificar a lei dos homens (o Estado, a mediação, a racionalidade, o bom senso, a argumentação) com a lei dos deuses (o familiar).
Antígona sabe que esta conciliação é impossível. Por isso ela vai só em sua hora, enquanto Hamlet está mortificado na hora do Outro.
Hamlet é o traço infantil de uma 'ironia' que segundo Lacan, é uma tentativa de colocação de uma pergunta ao Outro. Assim diz Hamlet:"Contudo eu, zé-ninguém feito de lama, pobre idiota sonhador, impotente para a minha causa própria, nada posso dizer, não, nem por um Rei a quem roubaram os bens e a própria vida numa pavorosa traição. Serei eu um covarde? Quem me chama vilão? Quem me parte a cabeça?"
Seu 'pensamento ruidoso', nas palavras de Freud, é o mote de sua indecisão, a demanda para que o Outro responda e, ao mesmo tempo, a tragédia de seu desejo.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Pedofilia

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Breno Melaragno - Professor PUC/RJ e Advogado Criminalista * Carlos Fortes - Promotor de Justiça - MG * Leda Nagle * Carlos Eduardo Leal – Psicanalista e escritor * Vladimir Brichta -Ator exclusivo Rede Globo * Talvane de Moraes - Psiquiatra Forense

No dia 16 de abril último, fui convidado a debater sobre a pedofilia no Programa Sem Censura da Leda Nagle, na TVE- Brasil. O tema era sobre o pedreiro Ademar de Jesus que havia matado e tido relações sexuais com 6 jovens em Luisiânia, Go. Mas, obviamente, muitas outras questões foram abordadas.

O sujeito perverso é aquele que diz que "não consegue se conter" e Edimar dizia, "não consigo parar de matar". A perversão se coloca acima da lei. Ele faz suas próprias leis. Não podemos dizer que vivemos cada vez mais numa sociedade perversa, mas numa sociedade ainda fortemente marcada pela neurose com graves traços de perversão. Ou seja, há umfranqueamento muito maior para a perversão, para o ato perverso em nosso meio social. A impunidade é o franchising da perversão. O mal, o mal-estar na civilização é o apagamento do desejo do sujeito frente à avalanche de demandas que o discurso capitalista oferece. Estafetichização das mercadorias, levam os sujeitos a um "dever de felicidade", como se fosse uma obrigação em ser feliz e uma depressão quando não se é.

Outro fato marcante que também tem acontecido é uma fratura do simbólico. Fratura das relações e dos laços simbólicos. Fratura das leis que regem as relações. Pais e filhos, professores e alunos, mestres e discípulos, patrões e empregados. As relações hierárquicas estão se esfacelando, virando pó (sic). Há micro revoluções não armadas, ou melhor, armadas em salvo-condutos, habeas-corpus, ou pior, a revolução dos celulares com câmeras de vídeo, tornou a todos espiões num reality show jamais visto até então. Todos estão vigiados e vigiam-se mutuamente num grande BBB.

A desestabilização do Imaginário (das garantias imaginárias - certezas construídas ao longo da vida), produz uma quebra, uma ruptura do simbólico (as palavras), fazendo emergir o insuportável peso do Real.

Mas o Ademar de Jesus dizia outras coisas. Dizia que ouvia vozes e que estas vozes o mandavam matar os jovens. Ora, se era assim, não se trata de uma perversão e sim de uma psicose. Não é nada raro esquizofrênicos que são assassinos obedecendo ao imperialismo gozo do Outro. Na perversão é a vontade de gozo, do próprio sujeito que faz com que ele não consiga se conter. Mas na psicose, como parece agora depois de sua morte, o sujeito alucina uma outra realidade.

Serge Cottet nos diz que "a especialidade de Lacan é o crime paranóico - não é o crime perverso, não é o crime de massa". Mas a pulsão criminosa já era vista por Freud quando ele estudou o assassinato do pai primitivo. Esta pulsão, pulsão de morte com certeza, imperativa sobre o próprio sujeito o levaria a cometer os assassinatos. Na alucinação o sujeito passa ao ato sem saber, melhor, sem um saber sobre a morte. Ao contrário da perversão na qual o sujeito sabe muito bem sim sobre seu ato. Aliás, ele o premedita. Premedita tanto que deixa brechas. CasosSuzane Von Hichtoffen, rapaz de Osaco que matou a avó e de tarde já havia sido preso, o pediatra que abusava dos rapazes e filmava tudo e depois jogava as fitas de vídeo em cima da lixeira. Ou seja, rastros da evidência de seus crimes. O paranóico não tem esta preocupação. Em sua alienação ele faz porque uma voz manda.

Ainda haverá muita dúvida no ar, mas uma única certeza: na perversão ou na loucura é muito difícil prever o próximo passo em direção à morte. E a justiça? Tarda e falha. Nisto ela tem sido perfeita. A leniência com a progressão de regime, coloca à solta o medo e a insegurança. Não sou especialista na área, mas como cidadão comum sinto-me impotente diante da ineficácia de quem deveria exercer a justiça. Descobrimos a cada dia um abuso, uma molestação, tal e qual o perverso diante daqueles que sabem os meandros da lei e possuem os recursos financeiros adequados contra aqueles que estão marginalizados (pelo saber ou pela pífia situação pecuniária) e, portanto não tem como se defender.

A origem do mal está em cada um de nós. A origem do bem também. O que se espera é que a ética, ética do desejo e da responsabilidade, faça avançar o affectio societatis em nosso meio, em nosso mal-estar da vida quotidiana. Como deter, como barrar o gozo absolutista do Outro? Como deter a Vontade de Gozo do perverso? A psicanálise é um instrumento que faz barreira e não compactua com o gozo. Ela aposta na ética, volto a dizer, na ética do desejo. Do um a um. A singularidade como aposta de saída contra a tirania do 'dever ser feliz', do 'dever gozar a qualquer preço'.

Os laços simbólicos estão frágeis, quebradiços. É um momento em que a "palavra" quase-nada-significa. Resgatar a dimensão simbólica da palavra é também não se perverter, no sentido lato da palavra perversão que significa errância de caminho.

Mas, insisto. Não há "O caminho". O que existe são caminhos que devem ser trilhados um a um. E, assim, possibilitar o encontro com a ética já que esta emerge (Emerj? sic!) quando surge o outro.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O estranho homo homini lupus


Homo Homini Lupus, Bernard Lorjou (1908-1986)

Unheimlich foi a palavra usada por Freud para dizer sobre o estranho.
Estranho é um sentimento de atopia em relação à si mesmo. Angústia é um afeto (que não engana) que comprime os espaços de saída tornando a vida enclausurada num quarto como no conto O corvo de Edgar Alan Poe. O que um dia foi familiar retorna como estranho.
Estamos vivendo tempos difíceis. O mundo que se quer feliz é meramente uma ilusão de efeitos passageiros, quase que como relâmpagos numa noite chuvosa. Não é um relato sombrio. Ser realista é constatar fatos.
Ainda há pouco constatei na minha cidade (Niterói) devastada em seu orgulho de ser a quarta cidade em qualidade de vida do país, ser assolada pela força da natureza que arrastou vidas. Freud dizia que o sofrimento do homem provinha de três direções: 1) O poder superior da natureza; 2)A fragilidade de nossos corpos; e 3) A maldade do homem contra outros homens. E cita Plauto: Homo homini lupus: o homem é o lobo do homem. Diante do medo, do estranho sentimento de se sentir estrangeiro em sua própria cidade. Diante da insuficiência em ser. Diante da fragilidade de nossos corpos e do poder superior da natureza, surge no meio do caos a maldade do homem contra outros homens. Pânico, correria, lojas fechando, pessoas chorando no meio da rua, helicóptero da polícia, camburões da polícia para conter um arrastão que se alastrou pela cidade...Arastão? Sim. Um arrastão de boatos. Tudo não passou de boatos de pessoas que queriam disseminar pânico a uma população já alarmada e sofrida. Desvio de atenção para o que ainda está por vir? Desvio de atenção para o pior?
Lacan disse certa vez que não é impossível que isso não piore. Ou seja, quando uma pessoa acha que já sofreu o bastante e que ela sempre foi "boa" para a humanidade, não haveria o que acontecer de mal a ela. Ela acha que não merecia isso. Não o fez por merecer. Mas acontece. Então ela se sente injustiçada achando que o mundo conspira só contra ela. Esta estranheza diante do mundo faz com que as pessoas queiram que o mundo caiba dentro do mundo delas e quando isso não acontece ( e nunca acontece) elas se angustiam diante da maldade do homem. Num recente filme de Francis Ford Copolla (A ilha do medo), Leonardo di Capri, o protagonista, se pergunta ao final do filme o que seria pior: viver como um monstro ou morrer como um homem bom?
O mal-estar na civilização está em nossas veias. Nós não somos apenas frutos podres do mal. Não. Estamos bem vivos, sadios e, mesmo assim, o praticamos.
Qual a saída?
O contrário da maldade não é a bondade, como poderiam pensar. O Bem, por existir, nunca nos livrou do sofrimento. Muito pelo contrário.
Então não seria o caso de pensarmos que a oposição ao mal seria a ética? O que você acha?

segunda-feira, 1 de março de 2010

Sobre o ensino e a transmissão da psicanálise


"A fala com efeito, é um dom de linguagem, e a linguagem não é imaterial. É um corpo sutil, mas é corpo." J. Lacan - Escritos
"É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos é que começamos a saber." Clarice Lispector - Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

Em psicanálise você não estuda e aprende. Em psicanálise você estuda, pensa, questiona e transmite. E sua quota de quase-saber vem daí. Daquilo que você ensinando, transmite a partir de um saber não sabido. O inconsciente é estabelecido não só como tendo uma estrutura de ficção, mas de uma linguagem que não se diz-toda: o real. Lacan em seu seminário sobre a angústia, chama de sintoma aquilo que vem do real. Portanto, há algo de inominável no real e, também, há algo de inominável no sintoma. Como se no próprio sintoma houve, por analogia ao sonho, também um umbigo. O real não se diz. Mas se transmite a partir dele. Então, como isso se operacionaliza? É o próprio Lacan quem nos orienta logo no início do seminário sobre os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (livro11) que é preciso tratar o real pelo simbólico (p.14). Pois é falando que a cadeia de significantes se articula em torno do vazio. É através dos intervalos da fala (É a regra técnica fundamental de Freud), suas reticências, seus hiatos que o sujeito pode dizer mais-além das aparências inibitórias do imaginário.
Há alguns anos constato a voracidade das terapias que prometem uma espécie da salvo conduto contra a neurose ou contra a loucura. São terapias centradas no ganho rápido, fácil e que obedecem à nova lei do mercado: a globalização da saúde mental. Algo que, com fina ironia, Machado de Assis escreveu em "O alienista". As terapias comportamentais são uma espécie de mortificação do pensamento. Não é à toa que me refiro ao alienista, já que promovem uma alienação do sujeito e sua faculdade de refletir, questionar. A vida hoje é uma consequência desenfreada de atos sem pensamento, como se fôssemos autômatos. Este modo de agir tem levado os sujeitos a posicionamentos perversos na vida coletiva. O ato sem pensar refere-se a uma razão cínica: o sujeito sabe muito bem o que ele está fazendo, mas mesmo assim continua fazendo. É um sujeito patológico que não quer se responsabilizar pelos seus atos. E quando um sujeito não se responsabiliza um Outro responde em seu lugar. Em nossa constituição o louco, a criança e o índio são garantidos com a prerrogativa de não precisarem responder pelos seus atos. Mas, e quando o sujeito comum, com sua neurose comum, possui um empuxo ao ato e pratica deliberadamente sem que pense nas consequências? Querer terapeuticamente apenas um ato sem pensamento, simplesmente como um reflexo condicionado (pelo Outro), é manter o sujeito nesta alienação. É criar a existência de sujeitos-googles. Sujeitos que apenas sabem muito bem apertar um botão e fazer emergir do outro lado, sem um mínimo de esforço do pensamento, milhares de informações sem nenhuma formação. Na verdade há que se esquecer de algo, como diz Clarice, um não-saber para que se possa começar a saber. E não tentar locupletar o eu com um expansionismo galáctico de gadgets que visem saciar a sede alienante e consumista em se querer todo.
A psicanálise ao colocar um ponto de basta diante do gozo fundamentalista do Outro, não é que pretenda querer ir contra a globalização, mas com isso permitir que o sujeito saiba ao menos de seus limites. Saber de seus limites é criar condições de possibilidades a respeito de seu desejo.
Se a psicanálise acentua a questão da angústia não-sem o desejo do Outro, é porque ela aposta que um sujeito do inconsciente possa advir e, com isso, uma outra formação poder surgir: as formações do inconsciente. Formações rateadas, não calculadas, amealhadas pelos atos falhos, inconclusas nas vacilações e nas atemporalizações da precariedade da fala. Mas, isto é o sujeito! Isto é o sujeito em sua diferença radical em seu desejo. Isto é o sujeito em sua diferença subjetiva e não um sujeito mortificado pela uniformidade globalizante. O sujeito da fala é o sujeito que, através do seu desejo possa bem-dizer sobre sua vida. O estilo próprio de cada um, que Lacan tanto preconizava, é apenas o que cada um, a seu modo, com sua travessia e percurso de análise pode transmitir de seu inconsciente para um outro. Por isso a transmissão da psicanálise é única, é um a um, um por um. Não há a possibilidade da massificação reprodutiva. Quem assim o faz, desertifica-se em seu afastamento radical do ensino de Freud e Lacan.
"O que é ensinar, quando se trata justamente de ensinar o que há por ensinar não apenas a quem não sabe, mas a quem não pode saber?" (Lacan, A angústia, livro 10 - p.26). O saber, não é qualquer saber, mas um saber que é constituído num trabalho de elaboração da análise.
Então, fica a questão: é possível transmitir, ensinar a psicanálise àquele que não passou por uma análise? Em outros termos: é possível uma psicanálise apenas teórica? Que alcance ela teria?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Depressão: patologia ética?



Depressão: patologia ética?

A depressão tem se tornado um mal maior do que poderíamos esperar. Aliás, o mundo como um todo, dizia uma pessoa, tem se tornado um excesso maior do que supôs nossa vã filosofia. Vivemos num mundo de excessos. Somos excedentes? Nós mesmos nos tornamos um excesso ao excesso que é o próprio mundo? Na verdade, o que podemos esperar da vida?

A compulsividade desenfreada nunca conheceu tanto incentivo mercadológico quanto o que temos visto em nossos consultórios. A constatação? Sujeitos cada vez mais deprimidos, apáticos diante de um mundo que parece que os vai engolir. Há uma selvageria nesta sociedade do espetáculo e dos efeitos especiais que acabam tendo como efeito sujeitos imobilizados diante de suas angústias, suas dores de existir, suas fobias enclausurantes. E, pior. Não sabem dar uma resposta a tudo isto pelo simples fato de acharem que podem dar resposta a tudo. Com a internet o mundo se abriu ao infinito, mas paradoxalmente, tivemos a desilução da finitude o que leva alguns sujeitos a constatarem pálidos: então o mundo é só isto? Outro estranho paradoxo que desta vez vem da Bíblia. Lá no Gênesis está escrito que os olhos do homem se arregalaram ao provar da árvore do conhecimento. Pois não é exatamente isto que estamos vivendo agora? A constatação (ilusória) de que podemos saber tudo? Há um excesso de informação para pouquíssima formação.

Os corpos tornaram-se Torres de Babel. Constantemente inacabados, continuamente querendo chegar à perfeição e prodigiosamente fracassando quando estavam no auge de quase poder alcançá-lo quer seja através do empuxo ao gozo desenfreado dos exercícios in extremis, quer seja pela introdução de próteses. Freud escreveu em o Mal-Estar na Civilização que o homem é um Deus de prótese. Ele, em 1930, previa a enxurrada de artifícios (botox, metracrilex ou substâncias tóxicas) que tentam manter os sujeitos no Jardim das Delícias eternamente.

Lacan nos diz que quando se atende a demanda, esmaga-se o desejo. Ele dizia isto sobre a relação analista-analisando. Mas o que vemos hoje é um mercado que está apto a atender e a suprir a qualquer demanda: das drogas ilícitas às lícitas, do fast food à delicatessen mais exótica, da igreja mais ortodoxa ao culto pagão, ou seja, há uma suplência para toda a falta. E é isto que produz sujeitos deprimidos: não há mais lugar para a falta e, portanto, para o desejo. Se não há lugar para o desejo, pela promessa de que tudo pode ser suprimido – também pelos comprimidos -, então o que há é uma falta da falta. Pura angústia. Fobia desencadeada que prende a todos em suas ilhas artificiais. Ninguém mais pode ter a desculpa de falhar, pois você pode conseguir tudo. É o imperativo americano do if you want, you can! Se você falhar, a culpa é sua. Mas ninguém quer se responsabilizar por nada. Os corpos das Torres de Babel de que eu dizia? Pois não há dúvidas de um processo crônico civilizatório dos sujeitos quererem continuar eternamente adolescentes, isto é, achando que podem ainda continuar irresponsáveis. Não há responsabilidade porque não há castigo. E não há castigo porque a lei do pai está em franca decadência. As hierarquias foram para o espaço. Talvez estejam nadando por aqui no cyberespaço, mas de fato e de direito? Esta condição parece ter chegado ao fim. A função paterna está capenga e não acredito haver substitutos. Quando os detectamos podemos pensar que ali talvez esteja uma impostura em curso.

Há um imperativo categórico que visa com que cada um deva suplementar-se de tudo, endividando-se se preciso for. Aliás, o binômio dívida-culpa nunca esteve tão presente. Mas é uma culpa que não faz com que os sujeitos repensem as suas atitudes e as refaçam de outro modo. Há um excesso de atos, de passagens ao ato e, em contrapartida, uma diminuição exacerbada do estatuto do simbólico: das palavras que possuam relevância, eficácia e peso. Não, não é uma leveza. Antes. O que há é uma fragilidade capilar da palavra. Nenhuma parece se sustentar. Nenhuma parece ter a dignidade ética para bem dizer uma vida. Há uma crise da linguagem que se passa através das palavras. Em nossa época as palavras tornaram-se extremamente frágeis, inconsistentes, são desditas, apresentam-se disfarçadas, escamoteadas, vazias, enlameadas, inúteis, incapazes de se tornar um significante que ordene um discurso. Não que elas não possuíssem estas e outras características em outras épocas, mas o que parece é que não há outra opção. Há uma sensação de que se pode dizer qualquer coisa, pois tudo pode caber. Mesmo aqueles que possuem uma representatividade (principalmente estes) no social, quando dizem “merda”, o povo parece sorrir mais das charges do que se lamentar ou, melhor, do que dar uma resposta que seja constitutiva de um bem dizer.

Se antes, em função da neurose, os sujeitos tornavam-se covardes e recuavam diante de seus atos, o que acontece hoje não é uma postura ética. Muito pelo contrário. A certeza da impunidade (sem o “p” de político, ou de parlamentar, vira ‘imunidade’) não os livrou da covardia moral, mas criou uma legião de tentáculos que produzem milhares de atos impensados que são impossíveis de serem contidos. Então, descobriu-se, para tristeza e espanto de todos, que é a própria lei que está em depressão.

Mesmo assim, ou apesar de tudo isto, a psicanálise em seu olhar sobre a polis, aposta, desde Freud, que a saída ética para o sujeito (ética do desejo), seja através da palavra. Resgatar a vida é, portanto, resgatar uma outra dimensão da palavra em seu bem dizer.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Infância perdida


Agora, oito horas da manhã desta segunda-feira, 07 de dezembro, enquanto acabava de chegar no meu consultório bateram na minha porta. Fui abrir e era uma menina lindinha que devia ter uns 9 anos (talvez menos). Ela estava com medo, apavorada, porque não sabia andar de elevador. Na verdade seu medo era de estar sozinha aqui no oitavo andar de um prédio de salas comerciais e consultórios. Sozinha e sem referências e, por medo, bateu na porta que julgou estar aberta. E estava. Estava pedindo socorro. Não queria estar ali sozinha, desamparada. Minha porta sempre está aberta para acolher o desamparo. "O que eu faço para descer"?, perguntou aflita. "Tenho medo de elevador e não sei 'andar' sozinha". Bem, segundo ela, a mãe a deixou na portaria para ela vir ao dentista (no meu andar) de quem ela mal sabia o nome e que ainda não havia chegado. Eu desci com ela, coloquei-a sentada na portaria e avisei ao porteiro que avisasse quando ele chegasse ou a mãe...etc etc etc Enfim , tomasse CONTA dela. Nossa, mas onde é que nós estamos? Depois da tragédia consumada, e aí? E daí? É a nova sociedade em rede que Jean-Pierre Lebrun, psicanalista francês fala nesta semana nas páginas amarelas da Veja. Não há mais hierarquias. O que resta é um novo modelo a ser inventado, recriado com o que temos hoje em dia e não mais segundo antigos parâmetros.
É preciso não abandonar nossos filhos. É preciso não acharmos que o mundo não tem solução e lavarmos precocemente nossas mãos.
A psicanálise sempre esteve atenta ao desregramento desenfreado dos sujeitos: o gozo a qualquer preço. É preciso por um ponto de basta no gozo. Um ponto não, vários em fução do gozo desenfreado que vivemos..
O filósofo Pascal Bruckner, escreveu A euforia perpétua: ensaio sobre o dever de felicidade (Difel) no qual aponta, do ponto de vista filosófico, o mal-estar que Freud já havia dito em 1930. Bruckner diz que "o projeto de ser feliz depara com três paradoxos. Refere-se a um objeto de tal maneira fluido, que se torna intimidante, por causa da imprecisão. Converte-se em tédio ou apatia tão logo se realiza (no sentido de que a felicidade ideal seria sempre saciada, sempre renascente, evitando a dupla armadilha da frustração e da saciedade). Por fim, disfarça o sofrimento, a ponto de se ver desarmada dele assim que este surge." A infelicidade não é apenas infelicidade, mas o fracasso da felicidade. É o dever de felicidade que ele escreve. Portanto, vergonha para o sujeito não é sucumbir em meio à dor, mas sucumbir em meio ao prazer.
No texto Mal-Estar na Civilização, Freud nos diz que o sofrimento surge de três direções: 1) Do envelhecimento dos nossos corpos (e suas doenças); 2) da força superior da natureza (furacões, nevascas, enchentes. É Freud antecipando nossa catástrofe ambiental de hoje) e, 3) o homem é o lobo do homem (Homo monini lupus). Dos três tipos de sofrimento, Freud constata que o último é o pior de todos, o que mais nos faz sofrer, pois em geral a gente não espera (embora estejamos cansados de saber) ou se previne, contra a maldade de outro humano ser.
A menina apavorada na porta do meu consultório é, ela própria, vítima infeliz do "homem que é o lobo do homem". Seus olhinhos assustados denotavam o temor diante do desconhecido. Ela é a 'bala perdida' do nosso futuro.
Que sua mãe possa verdadeiramente encontrá-la.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Nossas meias...verdades.


Agora são as meias cheias de dinheiro. Antes foram as cuecas, as malas, a casa da Roseana Sarney, os Correios, as pedras preciosas de Abi Ackel (isto faz mais de 15 anos), os anões do orçamento, Garotinho e Rosinha, Jader Barbalho, Collor e agora as meias. Estas fedem...
E a nossa vida andando às meias. São meias verdades, meias palavras, meias ideias, frases incompletas. Vivemos uma vida pela metade, ou menos. Uma vida ceifada por quem nos rouba diariamente. Se tenho raiva dos bandidos que nos assaltam em cada esquina, tenho ódio dos políticos e empresários que nos assaltam as esperanças. E a vida vai a meias. Tenho ódio destilado em palavras que não me acalmam. Tenho ódio porque eles roubam a merenda escolar, o remédio dos hospitais públicos, os cadernos e os livros para as escolas públicas. Eles sim são os grandes assaltantes deste país, pois roubam sem precisar. Roubam por ganância. Roubam sabendo que milhares de crianças vão crescer analfabetas e outras tantas morrerão de desnutrição e sem medicamentos. Eles tornam privado o que é público e a justiça os assiste: assistencialismo também no judiciário. Lotearam os cargos públicos e nos hospitais públicos o povo morre nas filas porque só há meio salário para os médicos, só há meio horário para o plantonista, só há meia maca para tanta gente doente.
Só existe um meio de moralizar: acabar com a meia vergonha que nos aprisiona e irmos para a rua. Para as ruas educar nossas crianças. É preciso retomar o antigo preceito das ágoas gregas quando os pedagogos ensinavam em praças públicas. Esta é a nossa melhor arma. A educação. Assim foi feito na Alemanha e na Coréia do Sul após suas guerras. Assim também foi feito no Japão que destinou após a Segunda Guerra Mundial, 80% do seu PIB para a educação. Um povo sem leitura e sem estudos não pensa, não raciocina, não consegue ter uma postura crítica, ética. Eu e você, como diz um jornal, já seremos dois. Amanhã seremos mais e, depois, mais ainda. Não suporto meias verdades. Precisamos de transparência para este Brasil que anda pela metade, ou melhor, não anda, arrasta-se entre um escândalo e outro. É preciso educar o povo. Esta é a nossa verdadeira revolução.
Basta! Basta de covardia moral. Também temos participação em nossa omissão. Não precisamos de uma vida a meias. Precisamos de uma vida que valha a pena ser vivida. Chega de nos escondermos. O povo precisa respirar e este ar está podre. Esta é a pior poluição que podemos enfrentar. Mas parece que o povo se satisfaz (desde sempre) com panis et circenses. Até quando seremos palhaços neste circo dos horrores?